A Moda e uma indústria marcada pelo trabalho escravo feminino

A moda tem a ver com todos. Ao consumir uma peça de roupa, você deixa claro que apoia aquela marca, seja ela justa ou não.

Photo by Muhammadtaha Ibrahim Ma'aji from Pexels


A desigualdade de gênero é um problema social conhecido por todos nós. As mulheres recebem menos que os homens, têm menos espaços em posições de liderança e, muito frequentemente, têm uma jornada dupla de trabalho, ao serem responsáveis também pelos cuidados da casa e/ou filhos. Infelizmente, na indústria da moda não é diferente.


Com um tipo de trabalho repetitivo, monótono e em ambientes completamente desfavoráveis, vê-se nessas oficinas um meio irregular e antiético. Mas, para as mulheres (a grande maioria do setor), esse tipo de trabalho, frequentemente, não é visto como a pior parte. A partir do momento em que as oficinas servem também como moradia - o que é mais comum ainda nos casos das trabalhadoras imigrantes - as relações se sobrepõem em todos os aspectos. Dividi-se ambientes com outras famílias desconhecidas, não há espaço que garanta o conforto necessário, não existe privacidade e é necessário dividir um ou dois banheiros com diversas pessoas. Além disso, esse cenário abre espaço para mais um tipo de abuso, o entre chefe e funcionário, onde o patrão passa a interferir diretamente em hábitos da vida pessoal de sua contratada.


“As mulheres trabalham em média de 14 a 16 horas por dia em um ambiente totalmente insalubre, morando no mesmo espaço de trabalho com seus filhos e expostas a inúmeros riscos. Trabalham muito porque o que se paga por cada peça é pouquíssimo”, diz Dari Santos, empreendedora social e diretora do Instituto Alinha. Não é necessário irmos muito longe para nos depararmos com situações como a descrita pela empreendedora. Em São Paulo, uma das cidades mais importantes do país em termos econômicos, mesmo que em uma rápida volta pelos bairros Brás e Bom Retiro, que formam o maior pólo produtivo de roupa do país, entendemos rapidamente que a maior parte dessas trabalhadoras é formada por mulheres e também mulheres bolivianas imigrantes, que vem para o Brasil em busca de melhor qualidade de vida, mas acabam em situações terríveis.


Não é raro que crianças vivam também nas oficinas, e como cama e alimentação estão diretamente ligados com o trabalho, as mães devem dividir seu espaço com seus filhos. Para as mulheres grávidas, tampouco há qualquer direito. As jornadas de trabalho permanecem as mesmas, sem pausas e descansos necessários, bem como não há a licença maternidade após o nascimento da criança.


Mais um problema nessas situações de oficina-casa, está diretamente ligado a sobreposição de funções destinadas às mulheres, uma vez que elas exercem suas atividades como costureiras, donas de casa, mães, esposas e muitas vezes também responsável por fazer a alimentação de todos da oficina. Para piorar a situação, as trabalhadoras nessas condições, não raramente, são vítimas de estupros, assédio moral e sexual, agressões físicas e carceamento da liberdade. Por todos os pontos de vista analisados é fácil concluir que a mulher é maior penalizada nesse cenário.


A fim de mostrar um pouco como é o cotidiano nas oficinas, a empreendedora social Dari foi responsável

por idealizar o curta-metragem chamado Linhas Tênues. Concorrendo a três festivais internacionais, a produção narra a vida de Maria Nina, uma costureira boliviana. "Quando conheci Nina e começamos a gravar, ela vivia em uma situação bem precária, costurando o dia todo e durante a madrugada, vendia roupas e lanches na feirinha da madrugada". Atualmente a oficina de Nina está estruturada e, consequentemente, a vida da Nina melhorou, basicamente por conta da valorização e do trabalho justo. “Espero poder contar mais histórias como da Nina, de superação, de mulheres que conseguem viver de forma digna através do trabalho na costura. Esse é o combustível que me mantém na ativa”, completa Dari.


A sinopse do curta, já nos faz querer entender mais sobre esse mundo: "Por baixo dos panos em um sistema de aparências e vitrines mórbidas, Nina, Julio e Jhayle, abrem as portas de casa e os porões da moda. A luta diária por uma vida digna deixa marcas, sem logo, sem etiquetas e muito mais duradouras do que as coleções da era fast fashion. ​Travessias costuradas por coragem, ​fé e ​danças alegram as entrelinhas de uma realidade cruel, exaustiva ​de uma escravidão​ moderna. ​"

Para ver a produção, clique aqui.


E, se quiser se aprofundar no assunto, indicamos a matéria feita pela plataforma Modifica: Mulheres Imigrantes na costura


E, como sempre dizemos, lembre-se que a sua compra é uma extensão de sua visão sobre o que é ético e o que é justo.


Escrito por,

Equipe Impacto


Fontes:

https://vogue.globo.com/Vogue-Negocios/noticia/2021/03/o-fim-das-costureiras-invisiveis.html?utm_campaign=later-linkinbio-voguebrasil&utm_content=later-16275264&utm_medium=social&utm_source=instagram

https://www.modefica.com.br/mulheres-imigrantes-costura-sao-paulo/#.YH2WG-hKhPY







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