A mulher no esporte profissional

O mundo esportivo: mais uma área da qual a mulher foi banida e teve que lutar para poder fazer parte do esporte profissional


A história das Olimpíadas nos mostra que o esporte não era "lugar de mulher". Quando os gregos criaram os jogos Olímpicos da Antiguidade, baniram as mulheres de participarem como esportistas e foram, oficialmente excluídas da competição. Além disso, as mulheres que era casadas, portanto desapropriadas de cidadania e, consequentemente, privada da vida pública e econômica eram também proibidas de assistir os jogos Olímpicos sob pena de morte. O motivo? Dizia-se que a proibição se dava para protegê-las de danos físicos aos seus corpos femininos frágeis, uma vez que as provas aconteciam em regiões montanhosas. Então, para "proteger" as mulheres, era até permitido matá-las. Contraditório, para se dizer o mínimo.


Na oficialização dos jogos modernos, a regra ainda era que elas permanecessem "no lugar delas", algo que ainda hoje não é raro. Mas então, como foi que elas conseguiram chegar lá?

Em 1896, a primeira Olimpíada moderna ainda proibia que as mulheres competissem. Esses jogos aconteceram na Grécia por iniciativa de um francês chamado Pierre de Frédy, o criador do Comitê Olímpico Internacional. Ele dizia abertamente que vetava a participação feminina, pois elas eram "imitações imperfeitas" (dos homens). Portanto, esse jogos de estréia aconteceram com 214 atletas homens, representando 14 países. As mulheres eram vistas apenas nas platéias.


Nesse mesmo ano, a grega Stamati Revithi correu o percurso de uma maratona, ou seja, 42.195km fora do estádio no dia após a competição masculina, em forma de protesto. Sua performance foi melhor e seu tempo menor do que de alguns atletas homens, porém a corredora não teve nenhum registro oficial sobre seu tempo de prova. As mulheres seguiam se manifestando e exigindo seu espaço no meio esportivo, porém o Comitê Olímpico Internacional, que era comandado absolutamente por homens, não permitiu a participação feminina em todos os esportes, mas apenas em pouquíssimas modalidades.


Foi então na segunda edição, em 1900 sediada em Paris, que as mulheres puderam participar, porém ainda extraoficialmente em duas categorias: golfe e tênis, pois eram esportes considerados bonitos de se ver e sem contato físico. Como era uma participação não oficial, não havia nenhum tipo de prêmio ou troféu para elas, apenas um certificado de sua participação. Com o decorrer dos anos, cada vez mais e mais mulheres se tornavam atletas e isso está diretamente ligado ao aumento da participação das mulheres na vida social, econômica e política. Vale lembrar que esse não foi um movimento natural, mas sim decorrente de inúmeras reivindicações.


Em 1932, a história oficial do esporte feminino brasileiro começa com Maria Lenk. Ela começou a nadar para melhorar sua saúde e fazia seus treinos no rio Tietê. Sua admirável inteligência, força e capacidade fez com que ela escrevesse a história ao tornar-se a primeira mulher brasileira e única sul-americana a competir nos Jogos Olímpicos, em Los Angeles. A estréia da natação feminina havia sido apenas há alguns anos antes, em 1912.


Começaram então a surgir algumas iniciativas para ampliar a categoria de esportes em que as mulheres pudessem participar, como o futebol. Porém, em 1941, o Brasil vivia a ditadura de Getúlio Vargas e veio mais uma decepção: o decreto que controlava a prática esportiva para mulheres. "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o CND baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país", determinava o Decreto-Lei 3.199 do Conselho Nacional de Desportos (CND) no ano em questão. Com isso, esportes ligados a luta de qualquer tipo, futebol (campo, salão ou praia), polo aquático, rugby, halterofilismo e beisebol foram proibidos por lei para as mulheres. Para justificar tal decreto, surgiram diversos tipos de argumentos inválidos sobre o tema, tal como " A questão principal, entretanto, está na biologia e não no machismo", declarou João Saldanha, treinador de futebol e jornalista.


Aída do Santos, uma das maiores atletas que nosso país já viu, fez história nas Olimpíadas de 1964. Mulher, negra e pobre, e com uma força inestimável. Ela foi a única mulher na delegação de 64 dos jogos em Tóquio. Viajou sem uniforme, tênis ou técnico e, mesmo assim, alcançou o inédito 4º lugar em salto em altura. Esse foi o melhor resultado das mulheres brasileiras, até ser batido em 1996, por Sandra e Jacqueline, que ganharam medalha de ouro no vôlei de praia. Hoje Aída tem um instituto que promove a inclusão social por meio do atletismo e também do vôlei.


No meio dessa evolução, com as atletas mulheres tornando-se oficialmente parte do mundo olímpico, surge mais um implícito para elas: o teste de gênero. Em 1966, a IAAF ( Federação Internacional de Atlestismo) passou a submeter as mulheres a um teste humilhante e invasivo.

O procedimento ficou conhecido como "teste de feminilidade" e tinha como objetivo ter certeza de que um homem não se passaria por uma mulher durante as competições. Esse teste baseava-se em apalpar as mulheres, nuas, supostamente em busca de testítculos ou qualquer sinal que mostrasse que ela não era, de fato, mulher. Em 1968, esse teste passou a ser aplicado em todas as mulheres que fossem participar de qualquer modalidade olímpica. Basicamente a mulher deitava-se nua, levantava os joelhos e era apalpada. Diante de contestações e revoltas por parte das atletas, houve uma alteração no protocolo para que o teste fosse "apenas" visual, onde deveriam tirar as roupas e ser analisada por três médicos que confirmariam que essa pessoa era mulher. Porém, obviamente, as reclamações em relação a esse teste continuaram, então o COI (Comitê Olímpico Internacional) mudou o protocolo para um teste de cromossômico, onde se encontrado o cromossomo Y (característica do sexo masculino, porém não exclusiva) definiria-se que a atleta estava "trapaceando". Esse procedimento era menos invasivo: passava-se um cotonete na bochecha para recolher material para fazer o mapeamento dos cromossomos.


Mesmo após muita pressão e suspensão dos testes pelo COI desde os jogos de Sidney, os testes de feminilidade ainda existem e são feitos em determinadas situações. O que ainda nos dá uma pequena dica do tamanho do problema que é ser mulher no mundo esportivo, afinal como exemplifica o jornalista esportivo Davi Zirin "Quando são homens que ocupam esse espaço genético único, eles são elogiados por isso, são como 'deuses' entre nós. Quando são mulheres, elas imediatamente são colocadas como suspeitas. Ninguém nunca questionou Shaquille O'Neal por ser muito alto ou muito forte. Michael Phelps já foi muito elogiado por ter desenvolvido um corpo de peixe, mas ninguém diz que ele leva vantagem por seus tornozelos flexíveis, ninguém diz que ele é 'estranho' (...)"


Após esses dois parágrafos importantes, podemos retomar a história das atletas olímpicas. A maratona sempre foi o esporte mais tradicional das olimpíadas, porém acreditava-se que não haveria adesão da parte das mulheres quando se falava em corrida, pois "elas não eram capazes de correr longas distâncias". E foi 1864, que foi provado o contrário. Dia 05 de agosto de 64 foi a primeira vez em que atletas mulheres puderam, oficialmente, correr uma maratona. Das 50 participantes, 44 terminaram a prova. A única brasileira que esteve na pista nesse momento foi Eleonora Mendonça, terminando a prova em 2h52minutos. Mas quem mais chamou a atenção nesse dia foi a atleta suíça Gabriele Andersen, com 39 anos. Mesmo desidratada, recusou ajuda e completou a prova, provando que sim, era possível.


O futebol feminino foi proibido em diversos países por décadas. A Copa do Mundo masculina existe desde 1930 e a Fifa nunca tinha pensando em criar uma versão feminina da competição. Foi só em 1988 que a organização montou um torneio experimental na China e, após três anos oficializou, com a participação de 12 seleções, incluindo o Brasil. E foi em 1991 que aconteceu a primeira Copa do Mundo de futebol feminino.


Em 1994, ninguém se importava com o basquete feminino. Mesmo tendo as três maiores jogadores que já vimos, Hortencia, Magic Paula e Janeth a seleção brasileira de basquete feminino foi ao mundial sem qualquer favoritismo ou expectativas. A seleção saiu de lá com uma conquista histórica para a modalidade. Chegaram na semifinal para enfrentar os Estados Unidos, uma vitória que parecia improvável, mas só parecia. Venceram e foram enfrentar a China. Mais uma vez, venceram e tiveram o poder de soltar o grito de campeãs mundiais.


Foram necessários 116 anos, mais de um século, para que finalmente, em 2012, as mulheres conquistassem o direito de disputar em todas as modalidades olímpicas. E o esporte que faltava para isso acontecer era o boxe feminino, que estreou nos jogos de Londres e, finalmente, foi a edição olímpica igualitária em relação as categorias entre homens e mulheres. Além disso, todos os países tinham atletas femininas, até a Arábia Saudita, país que conta com inúmeras restrições aos direitos da mulher.


E como não voltar no futebol, se a maior e melhor jogadora da história é uma mulher? Marta, em 2018, foi eleita pela sexta vez, a melhor jogadora do mundo. Nenhum outro jogador tem esse título.

"As minhas vitórias vêm para continuar a motivação para desenvolver a modalidade. Então, não foi a Marta que ganhou, foi o futebol feminino. Hoje é uma noite que coloca o futebol feminino do lado do masculino. Não tem exceção. Isso é fantástico." , diz Marta.

A Marta mudou a história e nós seguiremos o exemplo dela, mudando o que for necessário, enfrentando o que der e vier.


Escrito por,

Equipe Impacto


https://www.cartacapital.com.br/blogs/sororidade-em-pauta/a-luta-pela-inclusao-de-todas-as-mulheres-nos-esportes/

https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/24/teste-obrigava-atletas-a-comprovar-que-eram-mulhe