A vida da mulher que - PASMEM! - não quer ter filhos

Muitas mulheres escolhem não ter filhos, o que é uma decisão tão válida como o desejo de ser mãe. Aceitar e respeitar as escolhas de vida é um assunto urgente para a nossa sociedade.


Foto de Viktoria Slowikowska no Pexels


Existem muitas formas de uma pessoa não se encaixar naquilo que pode ser chamado de fardo social. O fardo pode ser aquela cobrança de que todos sejamos iguais, vivamos iguais e pensemos iguais. Por conta dessa situação, muitas decisões que pensamos ser livres são, na verdade, baseadas no que a sociedade espera de nós. Às vezes nem paramos pra pensar no que queremos e já seguimos um modelo de vida que na verdade nos foi imposto.


Foi assim que, até os 30 anos, achei que eu queria ser mãe. Ou melhor, que eu deveria... A ideia só passou a ser reanalisada quando eu, aos 32 anos, saí pelo mundo e conheci várias mulheres, a maioria mais velhas, que nunca tinham tido filhos e, acreditem!, eram felizes. Aquilo me trouxe uma perspectiva totalmente nova e um questionamento: queria eu ser mãe? Percebi naquele momento que nunca tinha tido essa vontade muito forte. Na verdade, eu nunca tinha tido essa vontade (choque!), nunca planejei o nome dos meus filhos como as minhas amiguinhas de escola, nunca me imaginei com o meu próprio filho, nunca nada, e foi quando eu percebi que o pensamento de ter filhos era na verdade externo e, pior: um peso. Um peso que eu tirei aos 33 anos (sabemos o tamanho desse peso, idade pra casar, pra engravidar, deus me acode!).

Não foi fácil decidir, não foi fácil dizer isso em voz alta. Eu, geração anos 80, fui condicionada a seguir esse padrão. Na mesma época em que tomei a decisão descobri um novo termo "maternidade compulsória" e li sobre muitas mulheres que se arrependeram de ter filhos (sim, tem gente que diz isso em voz alta, e que importância!). Ao mesmo tempo, fui muito julgada pela decisão - "ah, é porque você não achou a pessoa certa ainda" - como se ter filhos nos dias de hoje, como bem sabemos, dependesse indiscutivelmente de um pai -, "ah, você ainda vai mudar de ideia", ou simplesmente, aquele si-lên-ci-o-jul-ga-dor-tá-na-ca-ra.

Logo em seguida me tornei professora. As pessoas diziam "agora sim, você vai ver, o instinto irá aflorar". À parte do constante desrespeito à minha decisão - como é difícil quando fugimos do padrão, não é mesmo? -, o processo foi contrário, porque na escola eu vi como era difícil ser pai, ser mãe (gente, que dedicação gigante!!!), e também me deparei com tantas crianças negligenciadas, sofrendo pela falta de atenção, carinho, afeto, estrutura familiar, etc, etc, etc... enfim, não sei daonde tiraram que eu ia amar tudo aquilo, e enfim eu concluí que meus filhos seriam meus alunos. Se era pra batalhar por seres melhores no mundo, que fossem eles.

A questão toda é: se você quer ter filhos, meu amor, TENHA! Não tem discussão em torno disso: se esse é o seu instinto, a sua razão, o seu coração, sério, com certeza vai ser algo tão lindo, maravilhoso, recompensador, que, NOSSA! Mas se você não está certa sobre isso - e sim, você tem que estar, e sim você tem que parar e olhar pra si e ser honesta com o que você tem dentro de você, mesmo! -, pense até estar, porque colocar um ser humano no mundo deve ser um ato de extrema doação, que não deveria nem passar perto de necessidades pessoais. Tendo ou não filhos, todas as mulheres acabam passando por julgamentos fortes, mas viver a vida do jeito que a gente sabe que tem que viver é bem maior, né não? E, claro, respeite quem decidiu não ter. As mulheres que não querem ter filhos não são egoístas, nem loucas, nem amarguradas, nem solteironas. Sabe por quê? Porque tomar uma decisão contra a corrente social é difícil, desafiador e principalmente um ato de coragem muito maior do que se pode imaginar. Mas nunca, jamais, deixe de tomar essa decisão (pro sim ou pro não), se é isso o que o seu coração e, talvez, principalmente, a sua razão e o seu instinto mandarem... Sem medo, só vem, só vem, só vem, só vem.

Escrito por,


Priscila Pacheco.


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