O que você precisa saber sobre sustentabilidade na moda.

O que é sustentabilidade na moda e porque precisamos colocar na prática?



Em 1992, na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento que aconteceu no Rio de Janeiro, foi consolidado o conceito de desenvolvimento sustentável; o qual passou a ser entendido como o desenvolvimento a longo prazo, de maneira que não sejam exauridos os recursos naturais utilizados pela humanidade.[1]

Em outras palavras, um produto ou processo é sustentável quando o mesmo pode ser repetido ao longo do tempo sem esgotar os recursos naturais que precisamos para existir e para reproduzi-lo. Hoje, a maioria dos produtos que consumimos não são sustentáveis, isso inclui nossas roupas.


Para nos contextualizarmos é importante saber que o valor atual do mercado mundial de varejo de moda é de 300 bilhões de dólares. O que significa que o mercado de moda é enorme e nos próximos anos está projetado crescer ainda mais, 3,9% ao ano na média, o que resultará num crescimento acumulado de 21% em 5 anos, traduzindo-se em aproximadamente 363 bilhões de dólares para 2025.[2]

Por outro lado, a população mundial irá crescer menos do que o mercado da moda, aproximadamente 12,5% até 2025. O que nos faz entender que irão acontecer duas coisas: a aparição de novos consumidores e/ou o aumento do consumo de consumidores atuais.


O que sabemos também é que o planeta hoje já não dá conta de repor os recursos que gastamos; e para deixar isso mais explícito foi criado o Dia da Sobrecarga da Terra, em inglês: Earth Overshoot Day*, que marca a data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos excede o que a Terra pode regenerar naquele ano. Em 2020 esse dia foi 22 de Agosto. O que significa que precisaríamos de 1,6 planeta Terra para suprir nossa atual demanda por recursos naturais.


Não é necessário muito mais análise para concluir que não podemos continuar consumindo nem produzindo da forma que estamos fazendo atualmente. É preciso mudar.


Falando da indústria da moda pontualmente, não é só o tamanho do mercado que é enorme, mas também o impacto que ele gera no planeta. Começando pelo fato de que, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de sobras de tecido é queimado ou descartado em aterros sanitários no mundo [3], temos um problema sério que só irá piorar até 2025 se não agirmos.


Quem não tem uma calça jeans no guarda roupas? Sabia que para produzir apenas uma calça jeans são utilizados de 3 mil a 10 mil litros de água? [4] E para uma camiseta de algodão convencional são utilizados 2,7 mil litros de água [5] e muitos agrotóxicos que causam doenças nos trabalhadores da terra e na própria terra, que perde suas propriedades naturais? Só 1% do algodão cultivado no mundo é orgânico (sem uso de pesticidas), e mesmo ele demanda tanta água quanto ou até mais do que o algodão convencional.


Existe também um grande problema comportamental, alimentado pelo conhecido vilão dos ativistas da moda sustentável: o Fast Fashion, que não é mais do que uma prática de mercado que utilizam, principalmente, os grandes magazines e estimula as pessoas a consumirem mais, em menos tempo, por preços muito baixos, com o intuito de estar "in" ou "na moda". Por que isso é ruim? Porque peças fast fashion são utilizadas menos de cinco vezes e geram 400% mais emissões de carbono do que peças comuns, que são, em média, utilizadas 50 vezes [6].


Como é preciso atingir um preço muito baixo para estimular a compra impulsiva, o fast fashion é a principal fonte de trabalho escravo e exploração no mundo (afetando principalmente mulheres e crianças). Ao mesmo tempo, como a intenção é a de gerar modas que passam muito rápido para dar lugar a novas modas e mais vendas, os produtos não precisam ter boa qualidade, pois serão descartados e perderão valor estético rápidamente. Ou seja, são usados recursos valiosos do planeta para gerar produtos descartáveis que rapidamente ficam obsoletos e "fora de moda". Sem esquecer o segundo vilão, o Poliéster, que nada mais é do que o PET (plástico derivado do petróleo). Essa é a fibra mais barata e amplamente usada nas peças fast fashion, e demora 400 anos em se decompor. Resumindo, modas efêmeras que produzem peças com longa vida e pouquíssimo uso. Absurdo, não acha?


Temos ainda muito para aprender sobre o impacto da moda no planeta. O mais importante é tomar consciência de que cada escolha, cada compra, cada "moda passageira", gera uma pegada, usa recursos valiosos, escassos e necessários para a nossa sobrevivência na Terra.


Comprando menos, de marcas que criam coleções atemporais, com tecnologia voltada à sustentabilidade, com qualidade, que se preocupam pelo pós-consumo dos produtos e que oferecem, por exemplo, peças que precisam de menos lavagens, conserto das mesmas, etc, estamos contribuindo com uma economia mais saudável e sustentável para nós mesmos. Planeta e seres humanos não podem ser concebidas como duas coisas separadas, pois sem as condições planetárias para garantir a nossa vida, iremos nos extinguir.


A Terra irá se recompor dos seres humanos. A pergunta que fica sem resposta ainda é se nós humanos seremos o suficientemente inteligentes para sobreviver, cuidando dos recursos que possibilitaram a nossa vida e permanência neste planeta.


Na próxima visita ao shopping ou na loja online da sua marca preferida, reflita: preciso disso? Como é feito? Quem fez? A qualidade parece boa? Qual é a matéria prima utilizada? Quais os cuidados a peça demandará? Quantas vezes irei usar?



1. Fonte: Ecycle.com.br

2. Fonte: Kantar.

3. Fonte: "A New Textiles Economy: Redesigning fashion’s future Report", Ellen MacArthur Foundation, 2017.

4. Fonte: Portal Ecoera.

5. Fonte: Greenpeace.org

6. Fonte: Ecycle.com.br

* Earth Overshoot Day: O conceito de Earth Overshoot Day foi concebido pelo economista político Andrew Simms. Foi a parceria da entidade britânica New Economics Foundation, da qual Simms é membro, com o think tank internacional de pesquisa Global Footprint Network (GNF) que fez, por meio de uma campanha global, com que o dia ficasse mundialmente conhecido. Em seguida, a WWF se juntou ao grupo. (Fonte: Projetodraft.com)


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