Qual a diferença entre Rastreabilidade e Transparência na indústria da Moda?

Essas são duas ferramentas de suma importância para a construção e solidificação de uma indústria da moda mais justa.

Rastreabilidade e transparência tem significados diferentes, mas é impossível falar de transparência sem falarmos de rastreabilidade. De acordo com a definição do dicionário Michaelis, rastreabilidade é definida como “programa de acompanhamento sistematizado de um produto, desde sua origem, passando pelo processo de fabricação e manuseio, até seu destino final”. Enquanto isso, transparência é tida como “característica de quem age de modo franco e sem subterfúgios”. Essas são duas ferramentas de suma importância para a construção e solidificação de uma indústria da moda mais justa.

A indústria têxtil brasileira é um caso aparte, pois por aqui produzimos, consumimos e descartamos as roupas no nosso próprio território. Esse setor emprega de maneira direta 1,5 milhão de trabalhadores, sendo a maior concentração desses empregos logo no início da cadeia produtiva, ou seja, nas confecções. E, além de ser um país autosuficiente na produção da categoria de vestuário, o Brasil é o hoje o 5º maior produtor têxtil e 4º maior confeccionista do mundo.

Levando em conta diversos pontos, como a geografia do nosso país, as empresas estão pulverizadas, funcionando em uma dinâmica em que uma corta, a outra costura, um outra faz a lavagem, enquanto a outra se responsabiliza pela estamparia. Com essa quantidade de empresas envolvidas em um mesmo tema, rastrear os componentes de um produto torna-se uma missão realmente complexa. Além disso, a ausência de um estímulo jurídico-legal, o que podemos ver é uma verdadeira falta de iniciativas de rastreabilidade por parte das empresas.

Essa brecha acaba sendo responsável por gerar inúmeros impactos sociais e ambientais, tais como a as más condições de trabalho, a informalidade, trabalhos análogos a escravidão, subcontratações, trabalho infantil, falta de proteção para o uso de agrotóxicos e substâncias químicos, equipamentos tecnológicos caros e uma falta de conhecimentos de como trabalhar com essas novas tecnologias. A pulverização das empresas contribui para um dos maiores empecilhos para gerar uma mudança: a dificuldade de união e articulação do setor, situação que faz o processo de colaboração entre os diferentes envolvidos, essencial para qualquer tipo de transformação nessa estrutura e, que atualmente, quase não existe.


Bom, mas agora entendo as dificuldades existentes, quão difícil realmente é rastrear um produto a partir do momento em que se tem o controle operacional e logístico de toda sua cadeia? A problemática da rastreabilidade não é um fato exclusiva do mundo da moda, e sim um problema nacional - desde a indústria da carne até a cadeia produtiva da moda encontramos processos de transações quase incontáveis.

O ITM - Índice de Transparência na Moda, do Fashion Revolution, tem como objetivo “aumentar a divulgação pública sobre as relações de fornecimentos das empresas, bem como suas políticas, compromissos sociais e ambientais, metas, desempenho e progresso em relação à gestão de sua rede de fornecedores”. Recentemente em 2020, sua versão mais atual, o programa avaliou as informações divulgadas por 30 empresas de 05 grandes áreas, como, políticas e compromissos; governança; rastreabilidade; conhecer, comunicas e resolver tópicos em destaque.


Eloísa Artuso, responsável pelo ITM no Brasil, contou ao Modefica - plataforma de jornalismo - que são duas as categorias em que as marcas mostram ter maior dificuldade de pontuação: “ As marcas conseguem falar muitos mais sobre suas políticas, valores, do que elas conseguem comunicar o que está sendo monitorado e o que elas estão fazendo, de fato, na prática”. Então, vemos um grande problema na parte de conhecer, comunicar e resolver os tópicos em destaque.

As empresas reconhecem a sua necessidade de controle e melhor monitoramento dessa rede, mas também se auto avaliam com baixo nível de controle e monitoramento de sua própria cadeia. Os números do ITM exemplificam claramente a situação atual: das 30 marcas que foram analisadas, mais da metade delas, 16, pontuaram no pior nível possível, entre 0 a 10%, e nenhuma chegou nos três melhores níveis, entre 71 a 100%. 03 empresas, apenas, publicam um relatório anual de sustentabilidade ou de responsabilidade social que é auditada ou verificado por uma terceira organização independente da empresa.


Eloisa ressalta que “índice pode servir como ferramenta de diálogo e pressão frente ao poder público, tendo em vista que a transparência leva a prestação de contas e à responsabilização dos diversos atores ao longo da rede produtiva”.


De acordo com a plataforma Modefica, a jornalista juliana Aguilera, nos conta que existem 04 maneiras de fortalecer a rastreabilidade:


  • Blockchain

"O blockchain é uma ferramenta que vem se tornando cada vez mais acessível. Você já deve ter visto por aqui o Instituto Alinha, a primeira organização a implementar o blockchain para rastrear roupas e criar uma etiqueta que mostra onde, como e por quem a peça foi produzida. É uma iniciativa não só inédita no Brasil, mas em toda a América Latina. Com foco nas confecções, o instituto promove a visibilidade de costureiras e costureiros, garantindo melhores condições de trabalho, remuneração adequada, assessorando pequenas oficinas de costura para que elas entendam de regulamentação, saúde e segurança do trabalho."


  • Certificações

"Certificações são um passo para um cenário mais transparente. Iniciativas que buscam atestar os fornecedores que utilizam adequadamente os recursos naturais e têm compromisso com a não exploração predatória das florestas, como Forest Stewardship Council® (FSC) e Canopy, são alternativas para garantir a origem e rastreabilidade da matéria-prima. Vale lembrar também da certificação BCI (Better Cotton Initiative), no qual o Brasil se destaca: somos responsáveis por cerca de 30% do algodão BCI mundial, sendo que, na safra 2018/19, mais de 75% das plumas produzidas foram com essa certificação. Apesar da melhoras nas condições trabalhistas conquistadas pelo BCI, como já dissemos em outros momentos, ele também está no topo das culturas que mais consomem agrotóxicos no país, além de serem produzidos em culturas rotativas de soja e milho em altíssima escala, modelo agrário que tanto destrói biomas, vidas humanas e animais."


  • Padronizar Informações

" Um ponto importante levantado pelo Índice de Transparência do Fashion Revolution Brasil é que “ as informações compartilhadas pelas grandes marcas e varejistas são muitas vezes superficiais e difíceis de serem encontradas”. As informações públicas sobre a rede de fornecimento destas empresas ficam, frequentemente, escondidas em seus sites, ou hospedadas em sites externos, muitas vezes em um formato difícil de ler e entender, como relatórios longos, de trezentas páginas. Ou, as informações simplesmente não estão disponíveis.

Ainda há falta de padrões consistentes sobre questões sociais e ambientais, ou seja, as empresas apresentam as informações em formatos, linguagens e gráficos que melhor encaixam na sua leitura do cenário. Mesmo consumidores mais conscientes têm dificuldade em entender tais dados. Segundo Eloísa, após participar da pesquisa para o índice, as marcas passam a divulgar melhor essas informações, de maneira mais organizada e mais detalhada, porque muitas vezes elas têm esses dados, mas não sabem como organizá-los"


  • Legislação

" A melhor alternativa para pressionar empresas a investirem na rastreabilidade da sua rede é, claro, por meio da legislação. Não tem como fugir dela, já que por meios legais as mudanças acontecem em massa. Não é uma empresa, ou um produto “ecológico” que conseguirá romper com as problemáticas socioambientais da indústria da moda.


É exatamente a falta de instrumentos regulatórios, capazes de nivelar o campo e imputar responsabilidade de forma compartilhada, porém de acordo com tamanho da operação de cada ator, que estimula e incentiva um cenário corporativo sem ferramentas de monitoramento e controle e com práticas risíveis de sustentabilidade. A rastreabilidade poderia, inclusive, estimular a valorização da produção de moda."


São por esses motivos que, desde seu nascimento, a Impacto está constantemente atenta e participando ao máximo de processos possíveis, sempre em busca de participar e acompanhar ainda mais profundamente as etapas de seu processo produtivo.


Escrito por,

Equipe Impacto


Fonte: https://www.modefica.com.br/diferenca-rastreabilidade-transparencia/#.YQQhO1NKjBI